DRAMA EM TRÊS ATOS
PRIMEIRO ATO
(A cortina abre-se para uma sala de estar comum. Entra a Mãe e liga o rádio. Ouve-se apenas a estática, embora ela pareça ter localizado sua estação preferida. Ela se distrai arrumando a sala. Depois de alguns minutos, sobressalta-se com uma voz vinda dos bastidores, que vai crescendo num gemido:
- Silênciooooooo!
Rapidamente a Mãe desliga o rádio, resignada.)
Mãe
Como é difícil ser mãe hoje em dia! Estão sempre reclamando do barulho. Que vida! E esta bagunça na sala! Isso me deixa louca. Toda noite meu filho esquece de propósito os sapatos de ponta-cabeça sobre o tapete. Se acontecesse alguma desgraça, ele nem perceberia. Felizmente minha filha, mais responsável, nunca esquece as botinas no tapete. Por isso comprei uma sapateira só para ela.
(Entra a Filha sonâmbula, numa camisola branca.)
Mãe
Rosa das flores, filha querida, flor das rosas, onde estavas, leite de rosas?
Filha
Mãezinha querida, eu estava no armário, masturbando-me com um cabide. Terminei rapidamente o negócio e fiquei a meditar sobre a essencialidade de todas as coisas.
Mãe
(exultante)
Que profundidade escolheste, minha filha!
Filha
Sou grata a todos os santos. Minha chaga é uma janela aberta para o mundo. Regozijo-me pela humanidade sofredora. Hei de vencer, portanto. Quero ser a encarnação espiritual de Santa Teresa, ou de Santa Catarina.
Mãe
Ah, já posso ver… Santa Margarida, a pontificada! Que milagres advirão! Brotarão rosas de sangue no jardim, nossa casa se abrirá aos peregrinos e noite adentro ouviremos a música das estrelas!
Filha
Mãe, escuta! A vida é um circo, um cabaré, um teatro, um labirinto de espelhos, uma agitação feroz e sem finalidade, um sonho sonhado por um louco significando nada e o homem, lobo do homem, é um caniço que pensa, um bom selvagem dotado de uma paixão inútil, atado como uma corda entre o animal e o além do homem, uma corda sobre o abismo!
Mãe
Tua linguagem cifrada só pode ser fruto da inspiração divina. Como me cativas com tua docilidade filosófica! Agora repousa, filha, enquanto aguardas tua crucificação redentora.
Filha
Sim, minha genialidade filosófica é espantosa. Mas preciso voltar para o armário. O negócio está coçando de novo.
(A Filha deixa o palco como uma sonâmbula. A Mãe senta no sofá, reiniciando um bordado. Entra o Pai, de pijama, com um copo de leite na mão. Sentado à frente da Mãe, lê em silêncio o jornal.)
Mãe
Querido, que notícias traz o jornal esta manhã?
Pai
As de sempre. Tudo muda!
Mãe
Leia-me as manchetes enquanto tricoto.
(O Pai começa a falar, mas em vez de sua voz, o que se ouve é uma sucessão de ruídos de explosão, tiros de metralhadora, barulho de algazarra, gritos medonhos, risadas histéricas. Finda a “leitura”, a Mãe reflete.)
Mãe
Delicioso turbilhão da vida moderna!
Pai
Sabes que dia é hoje?
Mãe
Não faço a mínima idéia.
Pai
É o dia da crucificação de nossa filha.
Mãe
Tinha-me esquecido! Que burra eu sou! Nossa filha vai ser crucificada e eu nem preparei a festa! Mas como é possível que isso aconteça? Quinze anos se acabam num segundo! Como o tempo voa depressa! Mais depressa que os meses e as semanas, mais depressa que as horas e os minutos! Nossa filha cresceu a jato, e amadureceu de repente. Já vai subir aos céus! Por isso ela estava tão agitada, hoje, dentro do armário.
Pai
Ela já não é menina, embora virgem. O mundo lhe pertence, ainda que ela se faça de santa.
Mãe
Mas não podemos deixar! Ela não passa de uma criança!
Pai
Somos obrigados! É a natureza!
Mãe
Não podemos segurá-la pelo pescoço?
Pai
Seria uma aberração!
Mãe
Não é justo! Nós demos teto, nós demos tudo! E agora ela quer se martirizar? Quer se liberta? Quer nos matar, isso sim!
Pai
Ela é o nosso orgulho!
Mãe
Mas justo agora quando o mundo está desabando? Solidão à vista, velhice chegando, socorro! E ela se vinga de nós com todas as garras da juventude?
Pai
Por isso é que temos de crucificá-la. Ela não pode gozar de toda essa liberdade!
Mãe
Nunca! Minha filha não é uma vagabunda!
Pai
Então prepare a festa!
Mãe
Estou tão realizada! Minha filha consagrando-se campeã! Não vejo a hora. Que sucesso!
(Entra o Filho, com folhas de papel nas mãos.)
Filho
Terminei! Terminei meu poema!
Pai
Leia-o em voz alta para que possamos apreciá-lo.
Mãe
Sim, filhinho, recita teus versos melodiosos. (à parte). Mas já vou avisando: eu não entendo nada de poesia.
Filho
(lendo)
No meu quarto há uma porta torta
e atrás da porta há duas tortas postas.
Pegando as duas tortas, fecho a porta
e comendo quatro postas fico sem resposta.
Quem colocou as tortas no meu quarto,
como se elas fossem um par de sapatos?
E assim questionando fui ficando farto,
sem obter resposta que aclarasse o fato.
Mas logo encontrei a chave do problema
que tanto me afligia dado o seu mistério…
As tortas que eu pensava ser de massa e gema
Não tinham, na verdade, um bom recheio!
Eram de espuma e cheias de mortal veneno
Para dilacerar o meu estômago
até rachá-lo ao meio!…
Mãe
(horrorizada)
Que repugnante! Tortas envenadas, estômagos rachados! Que imaginação doentia e perversa! (para o Pai) Teu filho me enoja. Gostaria de envenená-lo e vê-lo agonizando com o estômado arrebentado. Aí ele veria o que vale a poesia.
Pai
És muito prática, querida. O mundo sem poesia seria um lugar insuportável. (para o Filho) Precisas amadurecer, meu filho, e muito!
(Ouvem-se gritos nos bastidores.)
Mãe
É minha filha. Não ouves os gritos da minha filha?
Pai
Que será desta vez?
Mãe
Com certeza, está sendo purificada pelo orgasmo! Ou quem sabe assiste à ascensão da Virgem?
Pai
Talvez esteja apenas rezando em voz alta. Os santos são dados às orgias.
Mãe
Depressa, não quero perder o espetáculo!
(Pai e Mãe saem correndo do palco, agitando os braços erguidos. Um ruído elevase dos bastidores, tornando-se cada vez mais forte e ameaçador. O Filho fica paralisado e assustado com o barulho que interrompeu sua leitura. As folhas vão caindo de suas mãos. Há um pavor difuso, sugerido pela iluminação e por uma sensação de trepidação, como no começo de um terremoto. Finalmente entram o Pai, a Mãe e a Filha, sorrindo como tolos.)
Filho
Por que toda essa alegria?
Pai
Hoje é um grande dia.
Mãe
Estou preparando uma festa. Uma coisa íntima, só para nós quatro.
Pai
O petit-comité.
Filha
É o dia da minha crucificação, idiota!
Filho
Ninguém é mais crucificado hoje em dia.
Mãe
Nossa família teme a Deus e se mantém fiel às tradições.
Pai
A menina que atinge a puberdade sem ser crucificada fica traumatizada pelo resto da vida.
Filha
Trancada no armário sonho noite e dia com pregos a penetrar minha carne.
Pai
(saindo com uma pasta na mão).
Belas palavras! Agora posso ir tranqüilo para o escritório.
Mãe
(saindo com uma panela na mão)
Vou preparar o almoço.
Filho
(à Filha)
Tenho nojo de ti.
Filha
És um canalha despeitado.
Filho
Se eu pudesse, te matava.
Filha
E eu arrancava tua língua.
Filho
Por menos, decepava-te a cabeça.
Filha
Antes eu te cravaria uma estaca no coração!
Filho
E eu alimentaria os cães com tuas entranhas.
Filha
Se escapares de minhas tesouradas!
Filho
Antes te reduziria a papa.
(Eles continuam a se trucidar verbalmente, enquanto o pano cai.)
SEGUNDO ATO
(Na sala, a mesa está posta. A Mãe, estendida numa poltrona, abana-se com um leque.)
Mãe
Está na mesa! Crianças, vinde logo! Não vou requentar o almoço! Está na mesa, já disse. Vinde depressa, ou jogarei tudo fora! Não me façais esperar. Não me façais explodir. Já está tudo frio, gelado! A comida virou pedra! O que tenho de suportar! Venham todos, pelo amor de Deus. Desgraçados! Assassinos! Não quereis vir, bandidos? Vós me pagais!
(Tudo isso é dito de uma enfiada. Logo em seguida, entra a Filha, esbaforida pela corrida.)
Filha
(ofegando)
Mãezinha, estou aqui! Assim que te ouvi gritar… corri para vir almoçar!
Mãe
(comovida)
Minha filha, meu tesouro. Bem sei que não me abandonas nas horas mais amargas, nem nos momentos difíceis. Agora teu irmão é como um sapo traiçoeiro, que anseia por darmos as costas para nos apunhalar, dentes sorridentes!
Filha
Ele está escrevendo mais poemas! Nem largou a caneta ao ouvir tuas súplicas.
Mãe
Que peste! O maldito quer ver minha caveira. Mas vamos ver quem é mais forte! Na torta que botei no prato dele… há um veneno de matar elefante!
(A Filha aplaude, excitada. O Filho entra lendo um livro.)
Mãe
Agora vê se comes um pouco e deixa a literatura de lado.
Filha
Por culpa do meu irmão maligno, a comida esfriou.
Mãe
Esfriou, gelou, virou pedra!
(Os três estão sentados ao redor da mesa, mas esperam ainda.)
Mãe
Já está na hora de vosso pai chegar.
(De repente, a luz se apaga. Uma música de horror eleva-se dos bastidores, enquanto um facho de luz passeia pela sala, procurando a porta da rua, que se abre com um estrondo. O Pai entra tonto, cambaleando. Traz no rosto uma expressão de pavor. O foco de luz isola-o da cena, que permanece escura. A música acompanha seu relato.)
Pai
Chego da rua! Oh, vós, que estais no aconchego do lar, não sabeis por que tormentos e transes passei! Impossível imaginar os terrores que espreitam atrás daquela porta. Ah, não deveis nunca sair de casa. Ao afastar-me do lar, desconhecidos aproximaram-se de mim. Gente estranha, cujos rostos, em nenhum momento anterior de minha vida, eu vislumbrara. Eram simplesmente desconhecidos, completamente desconhecidos. Corpos arqueados, bufantes, mulheres semiloucas, velhos mutilados, crianças desgrenhadas, toda espécie de gente cruzava meus passos na caluda, rodopiando à volta, apressados, atordoados por sinistros pensamentos… E numa dessas ruas povoadas de bizarras criaturas, cheguei a esbarrar num mendigo, que tentou arrancar de mim, à força do medo, uns míseros trocados! Os corpos amontoavam-se nas esquinas para atravessar a avenida; um barulho infernal dilacerava-me os ouvidos e, sem que eu pudesse reagir, a massa arrastou-me para o outro lado. Logo as máquinas vorazes avançaram descontroladamente, como os tubarões que não cessam de se agitar no fundo do oceano, pois se ficassem parados afundariam, posto que seu peso é maior que o volume. Os tubarões do asfalto não podem desligar seus motores quando em movimento, pois bloqueariam a via, então eles ficam alvoroçados, prontos para devorar os pedestres! Sempre em movimento, avançam e recuam, espreitam nossos passos e, se nos descuidamos, abocanham-nos e destroçam-nos como feras loucas e famintas. E, estraçalhados, voamos em pedaços pelas ruas e calçadas, tingindo o asfalto de sangue, nossos restos escorregando das paredes, tripas por todo lado, grudando e desgrudando, escorrendo pelos muros – farelos de nós! E quando vos afastais do rio imundo, não penseis estar a salvos. Tranqüilizado andava eu pelas calçadas quando – ZÁS – um automóvel voou sobre mim do fundo de sua toca. E existem milhões de tocas escavadas nas calçadas, onde à noite refugiam-se as bestas demoníacas.
Mãe
(olhando os filhos, cínica)
Que quadro realista nos pintas, querido! Quisera jamais sair de casa. A morte espreita a cada passo o trânsfuga aventureiro. Se quisermos viver seguros, devemos ficar em casa até o fim dos tempos.
Pai
A liberdade não vale um tostão furado! Em meio a tantos riscos, terminamos insanos ou sinistrados. De que adianta viver para perder a razão ou a vida?
Mãe
O homem só é livre para virar picadinho.
Filha
Não me importa o mundo. Sou santa, e aberta ficará a minha chaga. Os homens entrarão em meu quarto e farei milagres na cama. Serei entronizada numa alcova santificada. Os peregrinos farão fila à nossa porta para venerar minhas feridas.
Pai
Belas palavras, filha ajuizada. És santa, e tua responsabilidade é enorme.
Filho
(desafiador)
O mundo não deve ser tão mau.
Pai
Ah, não? Então experimenta! A vida podre está diante de ti: agarra-a. Se queres ser um aventureiro, muito bem. Ninguém te impedirá de conhecer a morte. Mas lembra, quando deparares com o rosto verde do vampiro carniceiro que esfola os adolescentes incautos, lembra das orações que te ensinamos quando eras pequenino.
Filho
(indiferente)
Não tenho medo de vampiros.
Mãe
Então não faças caso. Coma a torta.
Filho
Não estou com fome.
Mãe
(chocada)
Como?! Não declaraste há pouco teu amor pelas tortas? Não comeste há pouco quatro postas de uma torta falsa?
Filho
Era um poema…
Pai
Conversa! Toda literatura é literal. Põe os pés no chão. Se não comes, não poderás sair de casa. E se ficares fraco e doente? Queres que morramos de aflição por tua causa?
Filho
Não gosto de torta!
Mãe
Se reclamas da comida, procura lembrar-te dos que passam fome.
Filha
Se reclamas das vestes rasgadas, procura lembrar-te dos que morrem de frio.
Pai
Se reclamas dos sapatos furados, procura lembrar-te dos que não têm pés.
Todos
Amém.
Mãe
Agora, come a torta!
Pai
Come a torta!
Filha
Come a torta!
Todos
Come a torta!
Filho
(comendo)
Ai! A torta! A torta envenenada!
(O Filho cai no chão.)
Mãe
(desesperada)
Está morto! Meu filho querido assassinado! Chamai a polícia! Trazei a ambulância!
Pai
Cala-te, mãe desnaturada. Foste tu quem preparou a torta, logo foste tu que envenou o coitado do teu filho!
Filha
Morreu, morreu. Antes ele do que eu.
Mãe
É preciso ocultar o cadáver. Mas onde? Como? Por quê?
Pai
Seja objetiva! Só precisamos de um velório!
Mãe
Sim, o que está feito, está feito. Piedade é só o que peço ao Senhor.
Pai
Nosso filho era um poeta!
Mãe
Um poeta, um gênio. Tinha um temperamento sublime.
Filha
A sensibilidade em pessoa. Como choro sua morte!
Pai
Nosso rebento será aclamado “o divino” pelos anjos trombeteiros. Andorinhas percorrerão os sete céus numa alegria infinita de glória ao Senhor. Vou omprar um lindo caixão!
Filha
Vou me aprontar…
(Saem Pai e Filha.)
Mãe
Preciso preparar o velório. A Mana podia para me ajudar. Será uma beleza. Como gosto de velórios… Antes que seja tarde, precisamos chorar nossos mortos, para alcançar o céu de coração vazio.
(A Mãe telefona à Mana, e depois começa a espalhar flores pela casa. Entrementes, o Filho se levanta.)
Filho
Que está fazendo?
Mãe
Preparando o teu velório.
Filho
Velório?
Mãe
Claro! E nem pense em fugir. Ninguém pode deixar de assistir à morte dos entes queridos. É um laço que nos une. É quando toda a família se reúne. É tão emocionante… Não ouse faltar ao teu velório! Não ouse duvidar da família! Tua alma voará a jato para o inferno!
Filho
Não vou a nenhum velório. Muito menos ao meu. Não devo nada a ninguém.
Mãe
Deves! Vê-se à distância que estás cheio de culpa! Os pecados formigam na tua carne. Pensas que não sei? Mas uma mãe sabe mais que vinte tias juntas. Precisas pagar!
Filho
Por quê?
Mãe
Porque precisamos de um cadáver!
Filho
Não quero ir!
Mãe
Não podes escapar disso! Ninguém sobrevive impunemente…
(Neste instante, soa a campainha. A mãe parece despertar do transe.)
Mãe
Soa a campainha. Logo, é a tua tia!
Filho
Não tenho mais forças…
Mãe
Abre a porta!
Filho
(arrastando-se, abre a porta)
Olá, titia.
Tia
(abraçando o sobrinho)
Há quanto tempo! Veja o que te trouxe de presente. Soube que pensas em sair de casa. E agora que te convertes em homem, precisas de defesa. (tira da bolsa uma arma mal embrulhada). Mas… que… que é isso em teu nariz? (contempla assustada o nariz do Filho.)
Filho
É… é uma espinha.
(A Tia avança sobre o Filho, aproximando-se mais e mais de seu nariz, tirando uma lupa da bolsa, examinando a espinha com uma expressão indescritível de terror.)
Tia
Que asco! Uma espinha de proporções infamantes, maior até que um elefante! Uma espinha tão grande que mais parece um cancro gigante. Um tumor purulento, um pudim de fermento, que cresce… cresce… cresce… Repara, mana, repara! Um pobre menino, jamais em minha vida vi espinha tão feia, tão vermelha, tão nojenta na forma e no fundo, tão perigosa de explodir a qualquer momento, manchando a roupa dos circundantes!
Mãe
Não tinha notado. Só tu, mana, para descobrir aspectos degradantes em qualquer pessoa.
Tia
(orgulhosa)
Claro. Uma espinha carunchosa como essa é algo de ultrajante para ostentar no nariz. Veja, mana, bem em cima do nariz. E que espinha! Uma espinha calamitosa! Os outros a verão e dirão, jocosos e chocarreiros: “Vejam, esse aqui tem um nariz na espinha! Ei, rapaz, já notou que nasceu um nariz na sua espinha?” Há, há, há, há, há…
Mãe
Mana, és terrível. Tua coragem me espanta e fortifica.
Tia
Não tenho papas na língua. (dando uma indireta) Nem espinhas no nariz! Há, há, há, há, há…
Mãe
Mana, és uma pândega! Faz-me rir a bandeiras despregadas.
Tia
(puxando o pescoço do Filho com uma sombrinha)
Menino! Não toques aí, não ponhas a mão, não espremas!
Filho
(apavorado)
O quê, titia?
Tia
Tua espinha! É um perigo! Se torceres a espinha, estás perdido! Se tocares na ferida, estás fodido e mal pago! (põe-se a cantarolar)
Espinha, que espinha em teu nariz…
e o pus que escorre como chafariz…
Não reles nunca a espinha tenebrosa,
para não virar matéria cancerosa!…
Mãe
(rindo)
Como és espirituosa, Mana!
Tia
Não é para rir! Falo sério. Essa é a região mais perigosa para se ter uma espinha. Todo tratamento é necessário. Preparar algodão, álcool, esparadrapo. Enrolar a espinha em gase, sem relar, sem relar! Passar pomada, óleo, álcool (vai tirando de sua enorme bolsa todos esses produtos). Não vá esfregar a espinha, pelo amor de Deus! Se sair sangue, estás perdido! Se infeccionar, estás frito e enfarinhado! As espinhas nascem, crescem e se multiplicam. Florescem, dão frutos, arrebentam e não param de se reproduzir em toda a parte. Espinhas coloridas, vaporosas, dengosas, opacas, descalças, elas espoucam na pele de repente, enormes, gordas e cheias de pus.
Mãe
Mana, que erudição!
Tia
Cientificamente falando, as acnes são borbulhas que nascem na pele graças à supuração das glândulas sebáceas ou pilossebáceas. Essas pústulas têm uma etiologia diversa e ainda mal definida que, em regra, evoluem para foliculites supuradas.
Mãe
Fascinante!
Tia
(com nonchalance)
Existem variadas formas clínicas! A acne vulgar juvenil é a dermatose da adolescência. Evolui por surtos epidêmicos entre os treze e os vinte e cinco anos e, em seguida, atenua-se ou desaparece sem deixar notícia. Localiza-se na face e na parte superior do tórax. Nelas encontramos pontos pretos, chamados comedons, pápulas foliculares, pápulo-pústulas, nódulos inflamatórios e abscessos, que evoluem de forma isolada ou por associações. As formas pustulosa e papulosa são variações desse tipo. As causas das lesões cutâneas são a seborréia e a infecção. Existe também a acne miliar, que apresenta pústulas de dimensões muito pequenas nas mulheres de meia-idade. Também freqüente no sexo feminino é a acne rosácea, depois da menopausa. Em compensação, a acne queloidiana só atinge os homens, bem na nuca, no limite do couro cabeludo! Perigosa é a acne necrótica, devido à infecção de folículos seborréicos. Forma uma barra queloidiana rosada ou avermelhada que vai se tornando branca, glabra, lisa e muito dura… Ah, não, estou confusa. A acne necrótica dá origem a uma crosta acastanhada, muito aderente e rodeada por um halo inflamatório. Essa crista vai se despregando até cair! Fica apenas uma cicatriz indelével, branca e deprimida. Sem falar nas acnes profissionais ou medicamentosas e na famigerada acne conglobata, que se inicia por foliculites supuradas e evolui como úlcera serpiginosa. Vão-se formando abscessos de dimensões diferentes, verdadeiras galerias de esgoto, cheias de pus, fístulas, bridas, foguetes, vermes, cicatrizes e mais cicatrizes, em túnel ou ponte, anéis rodoviários de cicatrizes! Ah, Deus nos livre dessa acne! Deus nos livre de todos os tipos de acnes!
Mãe
Amém!
Tia
Mudemos de assunto.
Mãe
Sim! Por que não contas novamente aquela história do incêndio?
Tia
Incêndio? Deixe-me lembrar… Tantos incêndios em minha vida…
Mãe
Aquela, mana… A história de como puseste fogo no Reichstag!
Tia
Ah, meu período alemão. Que época maravilhosa! Aquela foi uma ação tática, mas de bom alvitre, que levei a cabo com outros camaradas do Partido. Mas isso é passado. Muita água correu sob o moinho. Deixemos os mortos enterrarem seus mortos.
Mãe
Então conta-nos outra, Mana. Tuas aventuras me alucinam!
Tia
Bem, eu poderia revelar-vos como invadi a Hungria num blindado, ou obtive a permissão para eletrocutar os Rosenberg, mas isso não levaria a nada. Também poderia contar minhas missões junto a Fidel Castro, minha gestão nos ministérios tcheco e polonês; falar dos cursos especiais que promovi pela América Latina, dos contatos que mantive com a polícia chinesa, de minha expedição no Vietnã, de minhas intervenções na Bósnia e em toda a África. Mas águas passadas não movem moinhos. O futuro está no Irã e na ciência. Elaboro programas de extermínio de populações civis com armas químicas, biológicas e atômicas, supervisiono programas nucleares e laboratórios de fertilização in vitro e clonagem humana e outras experiências fascinantes no campo da engenharia genética.
Mãe
Fantástico!
Tia
Bem, já se faz tarde. Preciso ir andando.
Mãe
Mas, Mana, não vais ficar para o velório do meu filho?
Tia
Velório? Pensei que fosse seu aniversário! Este rapagão está bem vivo! Vivo até demais!
Mãe
Sim, é mesmo! Não tinha reparado… Só tu, Mana, para descobrir aspectos degradantes em qualquer pessoa!
Tia
(saindo)
Claro. Mas se a espinha do rapaz piorar, me chama. Adoro velórios!
Filho
(desmaiando)
Não posso mais…
Mãe
(assustada)
Querido, vem depressa! Traz a caixa de remédios!
Filho
(acordando)
Que aconteceu? Não me sinto bem…
Pai
(entra com a caixa de remédios)
Que há? Responde!
Filho
Água… água…
Mãe
Meu Deus! Estará enlouquecendo?
Pai
(procurando na caixa)
Não te preocupes, querida, encontrei as vitaminetas!
Mãe
Vide a bula!
Pai
(abrindo o remédio)
Vitaminetas: para todo tipo de carência. Toma uma drágea por dia.
(O Pai pega uma colher e impinge a pastilha ao Filho. Depois sai com a Mãe. O Filho fica só.)
Filho
Eles nunca entenderão… Mas por que eu haveria de continuar tentando? O mundo é grande… Há de existir alguém como eu além desta porta… O remédio me fez bem… (toma mais pastilhas)… Eu só tenho que juntar forças para fugir de casa… Abandonar a família… (toma todo o vidro de vitaminetas).
(O Filho se levanta, forte, abre a porta com decisão e sai. Logo depois, a Filha irrompe em cena, gritando.)
Filha
Matei minha mãe! Ai, ai! Matei minha mãe! Matei!
(Entra o pai do lado oposto e começa a chacoalhar a Filha.)
Pai
(assustado)
Que dizes?!
Filha
(calma)
Eu estava tomando banho e, distraída, deixei a porta aberta. Justo quando ensaboava meu pau duro, ouvi passos no corredor. Tentei saltar da banheira e fechar a porta, mas já era tarde: Mamã passou pela porta e deparou comigo no umbral. Escorria espuma pelos cantos, a água lambuzava o chão. Quis alcançar a toalha, mas ela teve a mesma idéia e quando a trouxe para mim meu braço encontrou-se com o dela e a toalha caiu a meus pés. Ela se abaixou para pegá-la e quando se ergueu, roçou os lábios em minha glande úmida. Não pude conter um frêmito de prazer e, gritando, escorreguei para dentro da banheira, agarrada em seus cabelos. Enlouquecida, ela se pôs a chupar meu pau. Estive a ponto de explodir. Foi quando arranquei-lhe as roupas e, mergulhando-a na banheira, penetrei em suas coxas macias meu caralho duro como ferro em brasa… Quando dei por mim, após o êxtase, notei com indiferença que havia violentado e afogado minha própria mãe!
Pai
(passa instantaneamente do susto ao júbilo)
Filha abençoada! Que felicidade! És uma pessoa normal. Complexo de Édipo, inveja do pênis, homossexualidade latente, tudo confere! (abraça a Filha)
Filha
Sim, papai, agora que matei minha mãe posso ser eu mesma. E o meu ideal é namorar, noivar, casar, ter filhos, envelhecer e morrer. Quem pode desejar mais que isso?
Pai
Não nos desapontaste, filhota! Tens minha benção. E teu irmão?
Filha
(saindo)
No quarto ele não está.
Pai
Se não está no quarto… Está alhures! Querida! Nosso filho escapuliu!
Mãe
(entrando esbaforida)
Como? Ele estava doente, estendido no sofá!
Pai
Não está mais… Veja… O vidro!
Mãe
Vazio! Ele esvaziou o vidro! Entornou o caldo! Virou a mesa! Desgraça, desgraça!
Pai
Fugiu de casa!
Mãe
A culpa é tua! Os poetas não têm jeito; é bom assassiná-los no ventre. São uns fora da lei. Uma família está ameaçada de morte, quando em seu seio nasce um poeta.
Pai
Tens razão. Os poetas são o ponto final da espécie.
Mãe
Ele vai voltar quando precisar de dinheiro! Isso não vai tardar! Então nos vingaremos! Mas agora temos que preparar a crucificação de nossa Filha. Faremos a festa após o jantar, mesmo que teu Filho ingrato não apareça.
(Saem.)
TERCEIRO ATO
(O Filho volta da rua e deita-se no sofá. Entram o Pai, a Mãe e a Filha, carregando o jantar. Sentam todos à mesa. Há um clima de suspeita no ar. A TV está ligada, mas só transmite fantasmas. O Filho também se senta à mesa como se nada tivesse acontecido.)
Mãe
Tens um brilho diferente nos olhos, meu Filho.
Filha
Não vi o Mano essa tarde. Onde terá ido?
Pai
Estás realmente mudado. Que aconteceu? Vamos, desembucha teu coração. Abre tua alma para nós. Fala sem receio, Filhote.
Filho
Não posso me conter, é verdade! Saí de casa e me diverti. Mas, depois, fiquei sem dinheiro…
Mãe
(cínica)
Quem diria…
Pai
Não menti para ti. O mundo é um moinho. Por isso tens de ganhar teu sustento com o suor do teu rosto. Enquanto não ganhas teu pão, podemos fazer o que quiser contigo. Mais tarde hás de aprender um ofício e encontrar quem te prepare a comida. Emprego e família. Os dois fiéis da balança. Tudo em seu tempo e lugar. A boa medida, a medida certa. Será sacrificado no começo, mas logo te acostumarás. E trabalhando duro, engolindo sapo e economizando cada migalha, na primeira promoção comprarás um automóvel, para atropelar à vontade quem estiver à tua frente! Esse é o segredo da vida, meu Filho.
Filho
Mas…
Todos
Diz, diz! Somos todos ouvidos…
Filho
Eu vou ganhar dinheiro com a minha poesia!
Pai
Utopias! Quimeras! A realidade é outra. E a realidade é só o que conta.
Filho
Mas eu não quero acabar como…!
Pai
Vamos, chuta! Acabar como eu, não é? Pensas que és melhor que teu pai? Bastou uma aventura para te transformares num demônio? Ainda bem que tua Irmã ajuizada se deixa crucificar. Verás como ela se comporta como adulta. Um exemplo a seguir!
(Saem o Pai, a Mãe e a Filha. O Filho parece enlouquecer. Roda pela sala, tentando pensar em algo, batendo as mãos na cabeça. Logo os outros retornam carregando um enorme crucifixo, onde a Filha está pregada. Tem os olhos vazados, vestindo uma longa túnica branca, o sangue escoando pelo tecido, do colarinho à bainha. Após pendurar o crucifixo num canto, o Pai e a Mãe põem-se a rezar aos pés da Filha.)
Mãe
Santa Margarida redentora, aplaca a ira do destino. Fortifica nossa casa e destrói nossos inimigos!
Pai
Santa Margarida abençoada, espalha o amor entre os homens de boa vontade e aniquila os infiéis.
Mãe
Santa Margarida gloriosa, afia a fé de teu irmão renegado para que não seja fuzilado no inferno!
Santa Margarida
Meu rebanho! Agora que arranquei do rosto os olhos que me cegavam, tudo ficou claro! Escavei fundo minhas órbitas e não deixei o menor resíduo de carne, matéria degradada e terrestre. Quero enxergar todas as coisas a quilômetros de distância.
Mãe
E o que vês, filha abençoada?
Santa Margarida
Vejo imagens sublimes e luminosas: cascatas de rosas vermelhas e cintilantes, rubis jorrando espumantes de uma gruta negra e gelada. E, depois, não vejo mais nada.
Filho
(atônito)
O sangue… Escorrendo das feridas!
Mãe
Cala-te, ovelha negra! Não vês que minha filha é uma santa supliciada?
Pai
(estufado de orgulho)
A prova é que não sente dor alguma. Vazou os olhos com um prego enferrujado e desgarrou os restos com uma colher de sopa!
Mãe
Que mais podes ver, Santa Margarida?
Santa Margarida
Ah, posso ver a escuridão sem fim. O negror que recobre o negrume, a negrura da noite e o vazio medonho. Negra é a luz dos meus olhos, que a escuridão ofusca. Sombrio e tenebroso é o caminho que enxergo.
Pai
Que felicidade! Que iluminação! Podemos abrir nossa casa aos peregrinos! Realizaremos sessões de caridade e contemplação. Santa Margarida, também adivinhas o futuro?
Santa Margarida
Claro! Vejo à distância com raios-x e tenho à minha volta o presente, o passado e o futuro.
Pai
Então fala-nos alguma coisa sobre o futuro. Que há de acontecer?
Santa Margarida
Nada. Tudo ficará como está, pois assim o vejo.
Pai
(decepcionado)
Não, filha. Precisas temperar tuas adivinhações com um pouco de otimismo; os peregrinos desejam ouvir mensagens de esperança. Lança novamente teu olhar para a frente e traze-nos promessas de felicidade.
Santa Margarida
Ah, percebo… Sim, vejo dias maravilhosos. Nada de mau há de vingar. Tudo ficará tão bom como está, porque assim o vejo.
Mãe
Isso, minha filha. És santa e tua responsabilidade é enorme.
Filho
Desperta, tonta! Abre teus olhos!
Pai
(cortando)
Cala-te, perverso!
Filho
Ela está cega! Essa é a verdade!
Pai
A verdade?! O que é a verdade? Lorotas!
Filho
Vós também estais cegos!
Pai
Invejoso, maldito!
Mãe
Oh, calai vossas bocas! Não posso suportar tanta loucura! O pai contra o filho, o filho contra todos! Não posso mais, me destroço, me arrebento, me desfaço!
Filha
Mãe! Mãe! Onde colocaram meus olhos? Por que doem tanto? Acendam a luz, por favor! Não agüento a dor! É sangue que me empapa o vestido? Não agüento essa dor! Por que doem tanto meus olhos? Onde estão meus olhos? Não vejo nada, não enxergo a senhora! Esses buracos na minha cabeça! Essas trilhas de sangue! Essa escuridão! Mãeeeeeeeeeeee!
Filho
Para mim chega! Vou sumir daqui!
Mãe
Louco de pedra! Louco de pedra!
Filha
(descendo da cruz, sem marcas da crucficação)
Taca fogo nele, papai!
(O Pai empunha um lança-chamas e dispara contra o Filho.)
Pai
Queima, herege!
Filho
(rodopiando como tocha viva)
Eu sou um poeta. Vou viver de poesia! Vou inventar um jeito! Vou viver noutro mundo!
Pai
Pés no chão, diabo! Onde te levaram a ver coisas impossíveis? Quem te convenceu da existência desses mundos loucos? Foste teleguiado, meu filho. Foste drogado, é claro. Na tua ingenuidade, quanto de aproveitável! Querem te perder e te induzem a ver o que não existe. Pintas um paraíso para os teus, que só desejam saber da realidade. Tu te esqueces das feras, do sangue e do rio imundo e só enxergas o que te agradas ver. O mundo é uma pocilga, a vida é podridão, mais nada. Não adianta mover o dedo, aceita a nojeira, aceita!
Filho
Não, não e não!
Pai
Niilista! Pagão!
Mãe
(para a Filha)
Vamos, esse é o momento, não percamos mais tempo!
(Saem juntas Mãe e Filha.)
Pai
Estás desajustado, filho. Isso requer um tratamento. Teu pai conhece um especialista… Vais ver como ficas bem e voltas ao normal. Isso acontece na tua idade.
Filho
(carbonizado)
Nunca me senti melhor em minha vida.
(Entra a Mãe e a Filha segurando uma camisa de força.)
Mãe
Surpresa!
Filho
Não vos atreveis a chegar perto de mim!
(Enquanto os três tentam agarrá-lo, o Filho pega a arma que ganhou da Tia.)
Pai
Meu filho, um terrorista!
Mãe
Céus! Carne de minha carne! Como pude gerar tal monstro?
Filha
Meu irmão, quem diria!
Pai
(estarrecido)
Que desgosto! Pior que um comunista. Os vermelhos pelo menos respeitavam a tradição, a família e a propriedade!
Filho
Não vos aproximeis, já disse!
(Eles se aproximam. O Filho dispara contra o Pai, a Mãe e a Filha que, enquanto agonizam, arrastam-se em sua direção, tentando segurá-lo.)
Pai
(arrastando-se)
Pensas que venceste? Te enganas, desgraçado… O Estado é mais forte que tu!
Mãe
(arrastando-se)
Sempre será mais duro acabar com o Sistema…
Filha
(arrastando-se)
Irmão renegado… Maldito para sempre serás na consciência cristã da humanidade!
Mãe
(arrastando-se)
Cairás nas mãos da polícia! Serás aniquilado!
Pai
(arrastando-se)
Novas leis serão fabricadas especialmente contra ti. Os juízes te perseguirão… Os jornalistas te condenarão!
Filha
(arrastando-se)
Acabarão com tua raça! A Igreja há de excomungar-te, o Papa há de rezar uma missa contra ti!
Pai
(arrastando-se)
Larga essa arma, ainda é tempo…
Mãe
(arrastando-se)
Desiste antes que seja tarde!
(O Filho hesita um instante. Pai, Mãe e Filha avançam, usando suas últimas energias, tentando alcançar o Filho com as mãos. Estão prestes a agarrá-lo novamente, mas ele se afasta.)
Filho
Não vos aproximeis de mim! Acabei convosco! Acabei com a família!
Mãe
(arrastando-se, sempre)
Não, não conseguiste acabar conosco!
Pai
(arrastando-se, sempre)
Não, não consguiste acabar conosco…
Irmã
(arrastando-se, sempre)
Não, não conseguiste acabar conosco!
Todos
(arrastando-se)
Estaremos sempre rastejando atrás de ti!
Filho
(disparando novamente sobre eles)
Não! Morrei! Morrei!
Pai
(arrastando-se)
Não precisas gastar mais munição. Nós já estamos mortos.
Mãe
(arrastando-se)
Mortos, bem mortos…
Filho
Não podeis ficar se arrastando por onde quer que eu vá! Não podeis, não podeis!
Filha
(arrastando-se)
Nós podemos… Nós somos a família… Ninguém jamais se libertou da família. Ela se arrasta até depois de morta e acompanha, até o fim, cada um de seus membros partidos.
Mãe
(arrastando-se)
A família é algo mais que seus membros, é uma cadeia invisível suspensa no ar, uma teia de aço que envolve pais e filhos, um palco dividido em círculos que se atam e se desatam até o término da batalha, quando se reatam para novamente se romperem com mais força, até que não sobre mais nada, além de cinzas e laços de sangue.
Pai
(arrastando-se)
Este medo que estás sentindo…
Filha
(arrastando-se)
Este medo que te fez hesitar ainda há pouco…
Pai
(arrastando-se)
Este medo sentirás toda a vida!
Mãe
(arrastando-se)
Este medo é nosso espectro, que hás de carregar enquanto viveres! Levas contigo nossa marca, feita a fogo em tua carne. Levas contigo nossas sombras em tua infância, nossos rostos em teu rosto, nossas doenças em teu sangue!
Pai
(arrastando-se)
Sim! Viraremos pó, viraremos cinzas… Mas ninguém pode esquecer seu próprio nome, ninguém pode mudar seu passado, ninguém pode renascer noutra família.
Filha
(arrastando-se)
Ninguém pode desatar tantos nós…
Mãe
(arrastando-se)
São laços de sangue, meu filho… Laços de sangue…
(Eles continuam a se arrastar na direção do Filho, sangrando, até saírem todos do palco. Cai o pano.)